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| A cena de rock independente da capital goiana é uma das mais celebradas do Brasil. |
Goiânia é mundialmente conhecida como a "meca" do sertanejo, mas nas sombras dos grandes escritórios de agronegócio, floresceu uma das cenas de rock mais resilientes, criativas e influentes da América Latina. O chamado "Rock Goiano" não é apenas um gênero musical; é um ecossistema de resistência que transformou o cerrado em solo fértil para o indie, o psych-rock e o stoner.
1. O Início: A Rebeldia do Cerrado (Anos 90)
A cena começou a ganhar corpo no início da década de 90. Enquanto o Brasil olhava para o Manguebeat em Recife, Goiânia iniciava um movimento de "faça-você-mesmo" (DIY). O marco zero foi a fundação de selos e festivais que não dependiam do eixo Rio-São Paulo.
Bandas como Morgue e U.T.I. abriram caminho, mas foi com o surgimento da produtora Monstro Discos e do festival Goiânia Noise Festival (1995) que a cidade fincou sua bandeira no mapa do rock. O festival tornou-se um dos mais importantes do país, trazendo nomes internacionais e dando palco para a produção local.
2. A "Geração de Ouro" e o Som Psicodélico
Se existe um som que define Goiânia para o resto do Brasil, é o Rock Psicodélico e o Indie. A cidade desenvolveu uma sonoridade própria: guitarras com muito fuzz, letras introspectivas e uma estética que mistura o retrô com o moderno.
- MQN: Um dos pilares do rock de garagem goiano, com um som cru e energético.
- Black Drawing Chalks: O grupo elevou o patamar do rock goiano com o hit "My Favorite Way", sendo destaque na MTV e abrindo shows para gigantes internacionais. O som deles, um stoner rock de alta octanagem, provou que Goiânia falava a língua do rock mundial.
- Boogarins: Talvez a maior exportação da cena nos últimos anos. O grupo levou a psicodelia goiana para palcos como o Coachella e o Rock in Rio, com álbuns aclamados pela crítica internacional (como As Plantas Que Curam).
3. Protagonismo e Diversidade: Bandas que Fizeram História
A cena goiana nunca foi monótona. Ela abrange desde o punk até o metal e o alternativo:
- Violins: Conhecida pelas letras densas e arranjos sofisticados, é considerada uma das bandas mais "cult" do Brasil.
- Hellbenders: Representantes do peso, com um som que flerta com o metal e o stoner de forma magistral.
- Carne Doce: Liderada pela voz potente de Salma Jô, a banda trouxe uma nova camada de MPB psicodélica e letras viscerais, tornando-se presença obrigatória nos grandes festivais nacionais.
4. O Ecossistema: Festivais e Selos
O segredo de Goiânia não está apenas nas bandas, mas na infraestrutura independente.
- Goiânia Noise: O veterano que resiste há quase 30 anos.
- Festival Bananada: Tornou-se um dos festivais mais modernos e desejados do país, integrando música, artes visuais, skate e gastronomia.
- Monstro Discos: O selo que catalogou a história do rock goiano, lançando centenas de álbuns e mantendo a chama acesa.
5. Destaque no Brasil: Por que Goiânia é Diferente?
Diferente de outras cenas que dependem de "modismos", o rock em Goiânia sobrevive pela coletividade. Os músicos muitas vezes tocam em várias bandas ao mesmo tempo, e os donos de estúdios são os mesmos que organizam os festivais. Essa rede de apoio criou uma identidade visual e sonora muito forte, que é reconhecida em qualquer lugar do país.
Conclusão: O Futuro é Autoral
Hoje, o rock goiano continua a se reinventar. Novas bandas surgem a cada dia, ocupando espaços como o Centro Cultural Oscar Niemeyer ou inferninhos no Setor Sul. Para o Somtáon, Goiânia é o maior exemplo de que a música autoral brasileira é inesgotável. No coração do sertanejo, a guitarra ainda é o instrumento que grita mais alto.

