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| Os Tincoãs enquanto precursores do canto de resistencia |
Existem grupos que vendem discos e existem grupos que mudam o DNA de uma cultura. Os Tincoãs pertencem ao segundo grupo. Nascidos em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, eles não apenas criaram um som; eles traduziram a alma ancestral do Brasil em harmonias vocais que, até hoje, parecem vir de outra dimensão.
O Início: Da Seresta ao Terreiro
O grupo surgiu na década de 1960, inicialmente formado por Dadinho, Candeia e Heraldo. No começo, o repertório era focado em boleros e serestas, o padrão da época. No entanto, a grande virada estética aconteceu quando o grupo mergulhou nas vivências dos terreiros de Candomblé e no Samba de Roda da Bahia.
Foi com a entrada de Mateus Aleluia no lugar de Heraldo, e posteriormente de Dadinho e Badu, que Os Tincoãs lapidaram sua identidade definitiva. Eles trouxeram o atabaque para o centro do palco e transformaram cantos rituais em peças de câmara populares, unindo o sagrado e o profano com uma sofisticação vocal que o Brasil nunca tinha ouvido.
A Importância de Mateus Aleluia: O Guardião da Memória
Falar de Tincoãs sem falar de Mateus Aleluia é impossível. Mateus é mais que um músico; é um filósofo e um historiador oral. Após o fim da formação original e um período morando em Angola, Mateus retornou ao Brasil como a voz viva dessa herança.
Sua importância reside na capacidade de conectar a África mítica com o Brasil contemporâneo sem cair em clichês. Com uma voz que carrega o peso do tempo e a leveza da espiritualidade, Aleluia mantém viva a chama da "música afro-barroca". Ele é a prova de que a música brasileira é, em sua essência, uma oração de resistência.
O Legado: Quem Bebeu dessa Fonte?
A influência de Os Tincoãs é um rastro de luz que atravessa gerações. Eles foram precursores de tudo o que entendemos por "MPB com raízes africanas".
- Carlinhos Brown: Bebeu diretamente da fonte rítmica de Cachoeira.
- Margareth Menezes: Frequentemente cita o grupo como base de sua formação estética.
- Emicida e Criolo: A nova geração do Rap e da música contemporânea brasileira redescobriu Os Tincoãs, sampleando suas faixas e celebrando Mateus Aleluia como um mestre.
- Baco Exu do Blues: O rapper baiano é um dos grandes entusiastas contemporâneos, ajudando a levar o som dos Tincoãs para o público jovem.
Por que ouvir hoje?
Em um mercado musical saturado de batidas eletrônicas e letras efêmeras, Os Tincoãs oferecem o oposto: o silêncio preenchido pelo coro, a percussão orgânica e letras que falam de orixás, natureza e humanidade. Ouvir faixas como "Cordeiro de Nanã" ou "Deixa a Gira Girar" não é apenas lazer, é um exercício de autoconhecimento para qualquer brasileiro.
No Somtáon, celebramos esses mestres que provaram que o futuro da música brasileira está guardado em seu passado mais profundo.

